3 de dez. de 2010

Separando coisas

Alguns dias depois de ter saído da casa dele para me hospedar com uns tios, voltei para buscar minhas coisas (roupas, sapatos, livros, um quadro). Passei um dia inteiro arrumando, catando, separando, tentando me lembrar onde poderia haver um documento, uma foto, uma xícara de estimação que ganhei da minha avó, e tantas outras coisas se vão se misturando durante um casamento. Vai mais uma comparação: quem já perdeu  para a morte uma pessoa próxima, muito próxima e íntima enxergará neste post os momentos terríveis que envolvem o ato de "desmontar" a vida daquela pessoa, mexendo em suas coisas. Tudo está tão impregnado daquela vida que existiu até pouco tempo atrás, tudo está tão entranhado, tão espalhado pela casa, pelos móveis, que você acha que nunca vai conseguir juntar as coisas todas, e pelo resto da sua vida vai sentir falta de algo que foi emprestado a alguém, ou vai esbarrar em objetos que você ainda não tinha encontrado ou notado. E vai abrindo gavetas, armários, malas, sacolas, livros, cadernos, diários, e vai encontrando um mundo de lembranças e segredos de uma pessoa que não pode mais existir. Arrumar minhas malas e sacolas me fez relembrar o caminho contrário, o dia em que eu desarrumei tudo que tinha acabado de chegar nessa vida nova, nessa casa nova. Cada coisa que eu guardava na mala eu lembrava o momento em que a tirei da mala, há um ano e meio atrás. E fiquei muito tempo sentada no chão olhando as paredes vazias, a cozinha cheia de panelas e latinhas de todos os tamanhos, os utensílios todos, os temperos e eu não entendi como podia estar deixando tudo ali e indo embora para outro lugar. Minhas plantas na varanda, meu tomateiro, meu pé de pimenta carregado de frutos, meus gatos, meus dois gatos que eu não podia levar comigo. Tudo foi terrível, pois eu estava mexendo com uma vida (a dois) que não existia mais e separando todas as coisas que se misturaram de forma imperceptível durante todos esses meses. Não me casei com o homem da minha vida pensando no dia da separação, mas esse dia chegou, cedo, soterrando toda a esperança que eu tinha de consertar as coisas erradas. Havia chegado a hora de dizer adeus não só a um homem, mas a um sonho, a uma vida inteira planejada, idealizada, sonhada, e aos planos que tinha feito para o natal em família, para a chegada da minha filha que viria morar com a gente. Eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo e não estava pronta para isso e fiz tudo como se guiada por um instinto. Alcancei a estrada num carro fretado por ele e fui chorando no caminho, sem olhar para trás.

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