Olhando o calendário, não faz tanto tempo que eu tinha um par de pantufas de coelhinho, branco e rosa, e vestia um pijama nas mesmas cores, muito gostoso de dormir. Mas a impressão que tenho é de que se passaram anos desde que eu vestia essa singela fantasia para ser a criança para alguém que precisava ser um pouco pai, e para mim mesma, que precisava ser um pouco filha. Éramos amantes, marido e mulher, cúmplices das nossas vontades e necessidades e nos permitíamos essas coisas. Não havia erotismo nisso, pelo menos não consciente. O meu ex-marido adorou a ideia de me dar de presente um pijama adolescente que eu escolhi numa loja de departamentos e fez questão de comprar as pantufas quando eu disse que sempre quis ter umas. Mas nos conhecíamos o suficiente para selar esse pacto silencioso do querer.
Parece que faz tanto tempo que eu queria tanto agradá-lo, que eu me preocupava tanto em estar bonita, perfumada, em ter os cabelos do sonho dele, do jeitinho que ele queria.
E foi como se alguém cortasse um pedaço do rolo do filme quando nós saímos dessas cenas de romance, direta e imediatamente para a destruição.
Nós dois tentamos evitar o fim, cada um a seu modo e a seu tempo. Um desistiu primeiro, o outro sofreu mais. Ainda sofre. E eu não sei se algum dia eu poderei compactuar com outra pessoa da mesma forma.
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