Minha filha e eu compramos um filhotinho de daushoud em 2003, malhado de branco e marrom, com um rabo fininho e comprido, orelhas compridas e um olhar muito doce. No início foi a companhia exclusiva da minha filha, ambos eram crianças, gostavam das mesmas coisas, aprontavam e levavam bronca juntos.
Depois ele passou a ser meu parceiro e a agir como se eu fosse sua mãe. Nos meus piores dias, até o ano de 2009, ele foi minha melhor companhia. Ficava triste junto comigo, passava dias embaixo da minha cama quando eu não queria ver o mundo lá fora, "sorria" quando eu estava feliz e sempre, sempre tinha um afago a pedir ou a dar. Certa vez ficou doente, caiu das patas traseiras, e nós cuidamos dele com muito desvelo, até que ele voltou a andar. O veterinário chegou ao diagnóstico que era emocional, ocasionado por umas chineladas que dei nele por ter comido o sofá.
Em 2009 eu deixei o meu amigo pra trás, junto com outras coisas que eu achei que talvez pudesse trazer depois para Brasília. A última vez que o vi foi quando passei na casa que era minha (e passou a ser do meu pai) a caminho da rodoviária. Mal falei com ele para evitar uma crise de choro e uma lembrança triste. Apenas o vi abanando o rabo, choramingando, fazendo festa quando me viu, e depois de pé no portão, atrás das grades, olhando o carro sumir na rua. Como doeu, meu Deus. Era o meu pequenininho, tão dependente, tão carinhoso, tão meu amigo. Era uma abdicação em nome da felicidade tão sonhada e que estava há algumas centenas de quilômetros de mim. Valeria a pena. Ademais, com algum tempo eu talvez conseguisse convencer o meu marido a me deixar levá-lo para morar concosco.
Eu tinha fotos do meu cachorrinho, de quando eu o enfeitei de ajudante de papai noel, em 2008, e outras... Mas o meu orkut foi apagado e tudo se perdeu. Agora eu ainda tenho, acho que uma foto dele. Ele foi doado a uma senhora, dona de uma loja de animais. Dizem que está feliz, bem tratado, mas eu nunca mais o terei de volta, e talvez nunca desate esse nó de choro que me vem à garganta quando lembro de tudo isso. Eu o amava muito, muito mesmo. E ainda o amo.
No dia dos namorados desse ano, Ele me deu dois gatinhos de presente, um casal. Compramos brinquedos para eles e eu fiquei muito feliz em ter bichos de novo. Eles foram crescendo, eu fui me apegando, e os problemas começaram. Eu binquei muito com os dois no tempo em que eu ficava sozinha o dia todo no apartamento. O gatinho era muito apegado à mim, a gatinha era a mais travessa dos dois. Nos dois últimos meses da convivência desse casamento os "zigatos" (como eu gostava de chamá-los) foram minha companhia em todas as noites que dormi no chão frio e duro (sobre um colchonete improvisado com um edredom), ou no puff da sala, e também quando minha companhia era claramente indesejada às crianças e eu me isolava "do grupo", como Ele disse uma vez. Eu chegava do trabalho e os bichinhos ficavam me seguindo pela casa, eu os alimentava, tomava banho e ia me deitar, fazer cafuné nos dois.
Quando eu saí daquele apartamento, pedi (e até minha filha pediu) para que Ele (afff, com letra maiúscula) ficasse com os gatos até que eu pudesse alugar um lugar e levá-los para morar comigo. Mas eles não ficaram bem sem mim, passaram a viver mais no forro do prédio do que na área de serviço do apartamento, faziam muito barulho, incomodavam os vizinhos. Outro dia, depois de uma discussão horrorosa, os gatos foram levados embora. Foram deixados soltos num viveiro de plantas onde há outros gatos, e eu nunca mais os verei. E eu também avama os gatos, também tenho fotos e até vídeos deles, também tinha planos para eles.
Eu perdi muitas coisas que eu amava, num único golpe, num único ato. Eu me perdi de mim mesma, depois de tantos anos tentando me encontrar.
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